Como (não) ser vegan?

Desde que parei de consumir produtos animais, tive alguns amigos que mostraram interesse em saber mais acerca deste estilo de vida e escolhas alimentares. Ter quem me pergunte onde encontrar diferentes ingredientes, como cozinhá-los, algumas receitas simples para experimentar e até sugestões de produtos mais sustentáveis é algo que me deixa verdadeiramente feliz.

Alguns destes meus amigos inclusive já partilharam que cada vez mais têm vindo a optar pelas opções vegetarianas e veganas quando cozinham em casa, quando vão comer fora ou até na cantina ou local de trabalho! Sim, ainda ouço algumas piadas e comentários provocadores mas, na maior parte das vezes, são palavras ditas com um tom amigo e não ofensivo. Que vegan ou vegetariano nunca ouviu algum tipo de comentário acerca do seu consumo de proteína? Ou acerca da necessidade de consumir X,Y ou Z para cumprir requisitos nutricionais? Ou, se ousamos ficar doentes, o comentário “vês? Afinal não és assim tão mais saudável!”…

A verdade é que há pessoas indelicadas em todo o lado, seja qual for a sua dieta, estilo de vida, constituição, etc. Noto frequentemente um tom extremamente negativo entre vegans, o que leva a que não me surpreenda, com tristeza, que muitas pessoas se refiram a nós como autoritários, dogmáticos e desagradáveis (até já ouvi quem dissesse que somos quase um culto!?). O contrário também acontece. É extremamente desagradável estar ao pé de alguém que, no momento em que descobre que somos vegans, subitamente se torna num especialista de saúde e nutrição e sente a extrema necessidade de opinar acerca de cada alimento que comemos e como vivemos a nossa vida.

Uma vez que não gosto quando me dirigem este tipo de comportamento, tento não o fazer com quem me rodeia. Se o fizesse, iria alienar toda a minha família e amigos uma vez que sou a única vegan das redondezas. Tratar os outros com bondade e respeito, mesmo quando nos incomoda verdadeiramente ver bacon no prato alheio, leva-nos bastante mais longe do que simplesmente explodir num ataque às escolhas dessa pessoa. Uma vez mais, o oposto também é válido. Gente, se conhecem alguém vegan/vegetariano, ele/ela provavelmente já leram tanto sobre nutrição ou conjugação de alimentos que vos deixaria surpreendidos. Sabemos bem que vegetais crucíferos têm imenso cálcio, que os feijões abundam proteína e que podemos aumentar a nossa absorção do ferro ao consumir vitamina C (Espinafres + sumo de limão = Nham nham). Na verdade, a probablidade de encontrarmos um omnívoro com carência de fibra é extraordinariamente superior ao de encontrar um vegan com deficiência de proteína.

Sim, o consumo de produtos animais entristece-me para lá de palavras. Sim, custa-me imensamente ver violência para com animais, ver doenças causadas por escolhas alimentares ou ver a Natureza cada vez mais danificada. Sim, tento dar uma voz aos [animais] que não a têm. E sim, sinto-me verdadeiramente feliz de cada vez que faço uma versão veganizada de um prato que não o era. Mas também eu disse um dia que “jamais poderia ser vegetariana” e, posteriormente “não consigo imaginar-me ser vegan”. Eu também disse “adoro demasiado o frango assado” e “eu jamais poderia deixar de comer queijo”. As pessoas mudam e enquanto podemos partilhar as mesmas ferramentas que foram decisivas para nós e para as nossas decisões, não teremos nunca o direito de fazer as escolhas pelos outros.

A autora Colleen Patrick-Goudreau, no seu podcast Food for Thought, partilha uma ideia que gosto muito, ao falar acerca dos 10 habits of highly effective advocates [os 10 hábitos de activistas eficientes]:

“O objectivo é viver de acordo com a compaixão. O objectivo não é “viver de acordo com o veganismo”. Quando pensamos que ser vegan é o objectivo final – o prémio, o destino, ficamos presos na tentativa constante de ser perfeitos ou de atingir um nível qualquer de pureza, e esquecemo-nos no que é afinal ser vegan. Ser vegan é o meio para o objectivo e esse obectivo é a compaixão incondicional e o melhor bem-estar e saúde possíveis”

Este é o princípio pelo qual me guio. Por exemplo, ainda possuo pares de botas de cabedal, alguns dos quais têm mais de 10 anos. Também tenho camisolas de lã. A questão é que não tenho meios para simplesmente dar ou trocar todos estes items da minha roupa de inverno e passar a temporada gelada ou simplesmente descartar coisas que me foram oferecidas há anos, por pessoas importantes para mim. No entanto, caso necessite de algum novo artigo, já vou ter o cuidado de não adquirir produtos ou materiais de origem animal. Com a maquilhagem e cuidados de pele/rosto/cabelo foi bastante mais simples pois, como também já não usava muitos produtos, a troca foi mais rápida e eficiente – de momento, já não tenho qualquer um destes produtos que não seja vegan. Curiosamente, o meu trabalho passa por lidar frequentemente com pergaminhos! O que importa é começar por dar o nosso melhor e permanecermos fiéis ao objectivo final, o que é bastante diferente de tentar obsessivamente ver “perfeitamente” vegan. Não tentemos ser essa pessoa e simplesmente tentemos não julgar sistematicamente quem nos rodeia.

Num dos últimos emails enviados este ano pelo Veganuary (que gosto sempre de subscrever pelas receitas e posts interessantes) foi partilhada a noção da importância de tentar. Não importa se tiveram uma refeição batota, se compraram um batom que não é vegan ou se sem querer compraram massa que tem ovo… importa que tentem um pouco todos os dias, conscientemente.  Sejam receptivos, bondosos e sorridentes. Se não são vegans, não sejam rudes sem sequer experimentar. Se são, não tentem ser perfeitos, apenas humanos.

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